Quando acabou o filme “Melancolia”, ficou olhando a tela do
computador por um tempo.
Lembrou-se, depois, da furadeira que o vizinho de baixo fez
funcionar o dia todo. Teve que sair de casa para se ver livre do barulho que
parecia estar furando seu cérebro.
Mas a luz do dia a cegava, o brilho da
claridade inundava de cores seus olhos, quando apenas precisava do tom esmaecido de
um diazinho de chuva, ou então o ruço cobertor que descia das montanhas e a
envolvia escondendo o excesso.
No almoço, por distração, colocara muita pimenta baiana na
omelete. Foi quase como morrer queimada. A ardência que sentiu: insana.
Parecia que os extremos agudos do mundo entravam nela pelos poros, mexendo por dentro das células, indo até os átomos,
estremecendo sua estrutura vulnerável, porque aberta.
A atriz entendia, na sua solidão absoluta, as complexidades
do mundo. Sabia da realidade antes da ocorrência; sentia por antecipação, o que os outros sentiriam em seguida. Achava impossível qualquer tipo de
comunicação. Os diálogos do filme foram essenciais, pois deram forma às
imagens, ensinando o caminho das pedras ao espectador – mesmo tendo a parte
inicial como um libreto – da mesma forma que o da ópera – revelador.
As palavras, como sempre, pontuam a vida, encaminham-na, fazem
a ligação entre o ser e o mundo. Podemos pensar que elas permanecem nos livros quando
morremos, pois duram um pouco mais. Apenas um pouco mais.
Pois quando tudo
acaba, o que resta?