Eu já tinha pegado no livro umas 30 vezes, mas nunca como naquele momento, lembro como se fosse hoje. Sua leitura foi fundamental. Na página em questão, tive a primeira sensação de maravilhamento. Por certo eu já a sentira antes, em algum filme ou música. Mas não como naquela vez. Algo de novo me acontecia, como uma febre momentânea, falta de ar e dor no peito, coração acelerado.
Como apenas palavras haveriam de me causar tamanho susto? Era mais que um susto: um assombro. Shakespeare foi o primeiro de uma série imensa de autores por quem me apaixonei, por quem sofri. Lendo-os havia um elo muito forte entre eles e eu, e era como se vivesse mais dentro dos livros do que fora. Nas histórias eu lá estava, vivia como os personagens, fossem eles de Dickens, de E. Veríssimo, ou de José de Alencar.
SONETO 53
De que substância és feita,
Que milhões de estranhas sombras te envolvem?
Como todos têm, cada um, a sua sombra,
E tu, sozinha, podes emprestar a elas.
Descreve Adônis, cuja imitação
É parcamente feita à tua imagem;
E sobre o rosto de Helena toda arte da beleza se define,
E tu, em mosaicos gregos, de novo és pintada;
Fala da primavera, e do frescor do ano;
Aquela que exibe a sombra de tua formosura,
E o outro, como teu coração se assemelha,
E tu, em toda forma abençoada e conhecida.
Tomas parte de toda graça visível,
Mas, nem tu, nem ninguém mantém fiel o coração.
Eram apenas palavras, mas foram elas que me mostraram um patamar mais alto na escrita. Com Shakespeare, não havia comparação. Os outros autores que lera no colégio ficavam a milhas de distância deste, pareciam estar na pré-literatura. Como alguém poderia dizer – “de que substância és feita?”
E assim, antes mesmo de pensar numa faculdade, numa profissão, meu destino já estava selado.