Um texto multifacetado, eis a proposta hoje:
dúvidas!
Como parei de
ver tevê há seis ou sete anos, escolho o que vou ler pela internet e leio
reportagens em profundidade pela Piauí. As notícias do dia-a-dia se repetem
desde que Noé entrou na Arca. Procuro ver o mundo distanciada, tentando
analisá-lo partindo de notícias pinçadas aqui e ali. O Facebook também ajuda,
atuando como catalizador de sonhos, pragas, avisos, mensagens de uma forma
simplista e vazia, que às vezes “mobiliza” por meio de um curtir, e
te conecta com seus amigos virtuais.
Semana passada li uma profícua
reportagem do João M. Salles sobre a Islândia, e de como um pequeno país não
pagou aos bancos a sua dívida (e sim ao povo islandês) quando viu sua economia
ir para o brejo. Mal foi noticiada, pois é o tipo de matéria que abala o
sistema e se alastra como pólvora.
Num texto do Frei Betto, li um dado
apavorante com dados da FAO: numa Terra com sete bilhões de pessoas, metade
vive abaixo da faixa de pobreza, e 852 milhões têm fome crônica.
Já sabemos que quem manda no mundo são os banqueiros e o Mercado - senhor
absoluto. Parece que está tudo calmo e controlado, mas um dia haverá uma
retaliação (ricos x pobres) sem distinção de raças e credos. Precisamos
repensar o sistema globalizado, “centrado no consumismo, na especulação, na
transformação do mundo em cassino global”.
Esta é uma
questão.
A outra é a fome de dentro.
Depois de ler a
literatura e escritores de vários países, analisar seus estilos, estudar o modo
de como estruturam suas histórias percebendo as pequenas nuances estilísticas e
as grandes, cheguei à conclusão de que agora o único autor que me faz falta é
o Proust. Havia meses em que lia de 15 a 20 livros por mês, era um
oceano de descobertas, não podia perder tempo.
Meu guru sempre
foi Shakespeare, o que me causa inúmeras epifanias e me dá gosto à leitura. Mas
depois vêm o Joyce e o Guimarães Rosa, que experimentam a linguagem de forma
racional, mas extremamente rica e criativa. Numa história abarcam todo o
conhecimento humano e ainda inventam neologismos – graças à quantidade incrível
de línguas que falavam.
Na Piauí 65, uma matéria maravilhosa
do Mário Sérgio Conti sobre Proust.
Ele parte de um texto
proustiano: A morte de Bergotte, um dos mais conhecidos do
escritor, dentro de Em busca do tempo perdido. Narra a visita do
escritor Bergotte a uma exposição de arte holandesa em Paris, ao ver o quadro
“Vista de Delft”, do Vermeer, episódio que seria comparável à mordida numa
madeleine, ativando sem querer a memória do narrador fazendo-o voltar ao
passado.
E ali Conti nos mostra um pouco do
estilo do autor, através de três estudos de sua imensa bibliografia. (E fala,
inclusive, da gravação de 111 cds, com 128 horas de duração, com atores do
primeiro time, que leem o original na íntegra.)
No 1° estudo, o autor Jean Milly diz
que a frase é o elemento que define o estilo de Proust. “Ele concebeu uma
maneira de compor frases para fazer algo necessário e novo: inventar uma forma
literária que comportasse a crítica da sociedade à luz do tempo que a corrói.
São quatro personagens que servem de alegoria para a criação em pintura,
música, teatro e literatura. Seus longos períodos servem para reproduzir o
fluxo de pensamentos que altera a realidade ao percorrê-la.” A imagem de uma
madeleine molhada no chá e mordida ao acaso, faz com que o autor volte à
Combray esquecida, e ali reencontra-se o tempo para sempre perdido.
Conti por aí vai, numa análise
perfeita de todos os aspectos que marcaram a obra do escritor. Não os
comentarei, não é o meu objetivo. O que me valeu foi perceber, ansiosa, o tempo
que estou perdendo por não ler Proust: não há ninguém mais que se lhe compare.
Já peguei o primeiro livro muitas vezes: sinto sono. “Ah, mas se você passar da
página 100, você não o largará mais!” - ouço o tom de voz animado de minha
amiga Nelita, que tem uma de suas cartas enquadradas como um tesouro, na
biblioteca.
Falta Proust, a
fome de dentro.
Uma me dá
vontade de gritar, a outra me silencia.
Uma é visceral,
a outra, igualmente aguda.